Era uma vez um bairro popular (estranhamente semelhante ao Bairro Alto, em Lisboa). Havia putas às esquinas quase tão gastas como a tinta das paredes onde faziam tempo para o galão morno e a meia torrada a pingar de margarina vegetal na Leitaria Bar Nelson, havia negócios surdos com relógios de marca e tirantes de ourina catados de esticão, havia velhos quase a cair da tripeça, daqueles que se agarram apaixonadamente à bengala e se debatem com tenacidade por cada centímetro de calçada polida, e também havia velhos um pouco menos velhos que, nos intervalos da venda da lotaria e dos jornais, ainda conseguiam decifrar a cor dos reis das senas e dos duques antes de os lançarem em voo planado para o difícil aeródromo da mesinha de mármore furta-cores, bem mais preocupados em não acertar nas rodelas olímpicas de tinto benzido do que em ganhar pontos lambidos ao adversário de todas as tardes.